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O assassino das abelhas

Cientistas descobriram um vírus que infecta as colméias. Mas ele sozinho não explica por que os enxames estão morrendo no mundo todo

Luciana Vicária

A descoberta de um vírus poderoso que infecta abelhas pode ajudar a solucionar um mistério que há dois anos preocupa os cientistas em várias partes do mundo – a mortandade sem precedentes das abelhas nos Estados Unidos e na Europa. Nos últimos meses, os agricultores americanos perderam cerca de 80% de seus enxames. Na França, aproximadamente 30% das colméias morreram no primeiro semestre deste ano. Também há suspeitas de perdas na Suíça, Espanha e Inglaterra. Ainda não se sabe se o Brasil foi atingido por esse vírus.

Agricultores gaúchos e catarinenses relataram o desaparecimento de abelhas em níveis inéditos neste ano. Há estimativas de perdas em torno de 25% da produção de mel. O problema só não é maior no mundo porque os agricultores ainda conseguem comprar enxames novos para repor as perdas. Mas ninguém sabe por quanto tempo será possível encontrar colméias saudáveis para abastecer o mercado.

Na semana passada, um grupo de pesquisadores americanos revelou ter identificado um vírus presente em 96% das abelhas mortas em todos os enxames dizimados. O artigo foi publicado na revista científica Science. Ao comparar o genoma de abelhas sadias e doentes, os cientistas encontraram o vírus israelense de paralisia aguda (IAPV). A praga foi descrita pela primeira vez há dois anos em Israel. Ela teria se espalhado pela Austrália e alcançado os EUA, que importam colméias de várias partes do mundo. Ainda não se conhece o poder destrutivo do vírus. Sabe-se apenas que ele ataca a parte motora das abelhas, deixando as asas trêmulas de modo progressivo. Em alguns casos, os insetos perdem a capacidade de voar, caem no chão e morrem.

“O vírus é apenas a primeira peça do quebra-cabeça”, diz Diana Cox-Foster, da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos EUA, que lidera o grupo de estudos sobre o sumiço das abelhas. O vírus não explica por que as abelhas morrem a quilômetros de distância da colméia. Em Israel, onde a praga atacou pela primeira vez, as abelhas-operárias tombavam à beira da colméia. “Quando uma colônia é afetada por um microrganismo, sempre há muitas abelhas mortas ao redor da colméia”, diz Walter Haefecker, diretor da Associação Alemã de Apicultura. Agora, as abelhas-operárias saem de casa aparentemente saudáveis e não voltam para alimentar as mais novas. Elas seguem sem rumo e morrem, provavelmente por inanição. Afinal, o que as está matando?

A única certeza dos cientistas é que as abelhas estão debilitadas. A análise dos insetos mortos mostrou que, além do vírus israelense, as abelhas estavam infectadas por bactérias, fungos e protozoários. Algumas apresentavam cinco ou seis infecções ao mesmo tempo. “Os insetos estão estressados, e seu sistema imunológico pode ter entrado em colapso”, diz Fábia de Mello Pereira, da Embrapa. Há vários fatores que, aparentemente, estão enfraquecendo o sistema imunológico das abelhas. Todos eles, segundo os cientistas, têm o poder de acionar um comportamento atípico nas abelhas.

O primeiro fator de estresse seriam as plantações transgênicas. Algumas plantas recebem um gene de bactéria, que produz toxinas para repelir insetos da família das mariposas e borboletas. Surgiram indícios de que o pólen dessas plantas geneticamente modificadas estaria debilitando as abelhas. Um estudo realizado na Universidade de Jena, na Alemanha, entre 2001 e 2004, mostrou que as abelhas adoeceram com mais facilidade quando se nutriram de pólen transgênico. Mas pode ter sido por outras causas. “Nenhum estudo é conclusivo ainda”, diz Fábia. O aquecimento global é o segundo suspeito. A alteração no regime de chuvas adia a maturação de algumas espécies de flores e pode matar colméias inteiras por desnutrição. Afinal, o pólen é a principal fonte de alimento desses insetos. Além disso, a prática de alugar colméias é mais um fator estressante para as abelhas. Elas são levadas de uma fazenda para outra de caminhão sempre que novas culturas estão em época de floração.

O principal suspeito é o uso de agrotóxicos. Os pesquisadores desconfiam especialmente de uma classe de pesticidas derivados do tabaco, da classe dos neonicotinóides. Ele afeta o sistema neurológico dos animais. “Isso poderia explicar o porquê de as abelhas saírem da colméia e não voltar mais”, diz o cientista alemão Haefecker. Elas não conseguiriam achar o caminho de volta. Outra razão para desconfiar dos pesticidas é que a colméia vazia não é atacada por predadores. “Pode haver algo tóxico nelas.”

As abelhas domésticas são os insetos mais importantes na produção de alimentos. Ao levar o pólen de uma flor a outra, elas induzem a formação de sementes e frutos. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), as abelhas polinizam os frutos de 73% dos alimentos que consumimos. “Nenhum inseto tem a capacidade de substituir as abelhas”, diz Ian Lipkin, diretor do Centro de Infecção e Imunologia da Universidade Colúmbia. A falta das abelhas seria mais catastrófica para a agricultura que o aquecimento global, afirma Diana. O físico Albert Einstein, um admirador das abelhas, certa vez disse: “Se a abelha desaparecer da superfície do planeta, então ao homem restariam apenas quatro anos de vida”.

Brincando com a Morte

CONTARDO CALLIGARIS  (Folha de São Paulo)

São Paulo, quinta-feira, 19 de julho de 2007 

“COUNSELING TODAY” (o aconselhamento hoje) é a publicação mensal da American Counseling Association, uma espécie de sindicato norte-americano, que reúne terapeutas de todas as orientações.
No número de maio deste ano, a revista publicou um artigo, de Angela Kennedy, para alertar sobre a difusão, principalmente entre os jovens, de uma prática perigosa: a “brincadeira” da auto-sufocação, também chamada “jogo do desmaio” ou “macaco no espaço”.
A prática consiste em produzir uma asfixia temporária em si mesmo ou, quando há mais de um “jogador”, num parceiro de quem se espera a recíproca.
O sujeito exerce uma pressão no ponto adequado do pescoço, sobre a artéria carótida, cortando o fluxo de sangue e oxigênio: o cérebro, aos poucos, apaga. O “jogador”, aproximando-se do desmaio, sente um formigamento generalizado, mas o ápice da experiência acontece quando a circulação é liberada e o sangue volta com força para o cérebro.
Existem variantes da “brincadeira”. A diminuição de dióxido de carbono no sangue produzida por hiperventilação, ou seja, respirando rápida e profundamente durante um bom tempo. Ou, então, seu oposto: a asfixia produzida fechando um saco plástico ao redor da cabeça.
Também há outras maneira de praticar a “brincadeira” básica. A mais perigosa, obviamente, acontece quando, em vez de pressionar a carótida, um “jogador” solitário usa uma corda ou um cinto para apertar seu próprio pescoço. Segundo o artigo, seria necessário revisar as estatísticas dos suicídios por enforcamento, considerando como possíveis casos de “brincadeira” malograda as situações em que o sujeito se enforcou sem pular no vazio, mas amarrando corda ou cinto à altura do pescoço e dobrando as pernas para se estrangular progressivamente.
Salvo acidente (danos cerebrais irreversíveis e, eventualmente, morte), essas práticas são difíceis de ser detectadas. Freqüentemente, os “jogadores” são adolescentes sem problemas, bem integrados na escola e no grupo. Ao não ser que um jovem passe de repente a usar gola alta ou echarpe no pescoço para esconder marcas ocasionais, os sinais de alerta indicados pelo artigo são consistentes com qualquer adolescente (vontade de se trancar no quarto, dor de cabeça, irritabilidade etc.).
Quem quer saber mais pode consultar o site www.stop-the-choking-game.com (com atalhos para outro sites) ou, para verificar que o fenômeno não é apenas norte-americano, ler um artigo francês sobre o tema, no “Journal de Pédiatrie et de Puériculture” (vol. 19, nº 8, dezembro de 2006).
A prática era conhecida há tempo, embora silenciada para que não se difundisse. A American Counseling Association preferiu agora informar a comunidade.
Na minha clínica, só encontrei um caso (que, por sorte, não acabou em desastre). Pensei nele recentemente. Viajando pela Itália, poucas semanas atrás, assisti à cena seguinte. Adolescentes espanhóis em excursão, sentados no chão na Piazza del Campo de Siena, comportavam-se como idiotas. Atiravam nos pombos com armas de brinquedo que acabavam de comprar, falavam besteiras em megafones que também acabavam de comprar e enchiam de lixo o chão ao redor deles, embora estivessem a três passos de uma lixeira. Zombaram repetidamente de cidadãos que tentaram acalmar sua estupidez. Enfim, um lixeiro, indignado, largou sua vassoura e saiu à procura de um policial. Embora eles entendessem a ameaça, não pararam de zoar.
Antes que o policial chegasse, eis que entrou na Piazza, perto do lugar onde eles estavam acampados, um funeral: primeiro vinha um padre, logo o caixão, transportado por seis homens, e a viúva e os filhos, chorando. Nos cafés, as pessoas se levantaram, por respeito. Os jovens espanhóis emudeceram, guardaram em suas caixas arminhas e megafones; um deles juntou os restos de pizza e as garrafas vazias e levou tudo para a lixeira.
Moral da história? A morte é uma coisa séria; talvez, como dizia Freud (e não só Freud), ela seja o único mestre absoluto de nossa vida. Brincar com a morte, de repente, pode parecer a única brincadeira que vale a pena, por ser uma “brincadeira” realmente séria (nada a ver com jogos virtuais ou armas de plástico).
Agora, de vez em quando, pensar na morte pode também nos ajudar a levar a vida mais a sério.

Sobre a morte e o morrer: Elisabeth Kübler-Ross

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Elisabeth Kübler-Ross, médica, é a mulher que mudou a maneira como o mundo pensava sobre a morte e o morrer. Através de seus vários livros e muitos anos de trabalho com crianças, pacientes de AIDS e idosos portadores de doenças fatais, Kübler-Ross trouxe consolo e compreensão para milhões de pessoas que tentavam lidar com a própria morte ou com a de entes queridos. Hoje, enfrentando a perspectiva da morte aos setenta e um anos, essa médica internacionalmente famosa conta a história de sua vida e aprofunda sua verdade final: a morte não existe.

Escrita com franqueza e entusiasmo, a autobiografia de Kübler-Ross reconstitui o desenvolvimento intelectual e espiritual de um destino. As convicções que enfrentaram dogmas, preconceitos e críticas, já estavam presentes na menina suíça, quando a jovem Elisabeth se viu pela primeira vez diante das injustiças do mundo e jurou acabar com elas.

Do seu trabalho na Polônia devastada pela guerra à sua forma pioneira de aconselhamento terapêutico aos doentes terminais, a seus já lendários seminários sobre a morte e o processo de morrer na Universidade de Chicago, às suas surpreendentes conversas com os que reviveram depois da morte, cada experiência proporcionou a Kübler-Ross uma peça do quebra-cabeça. Em uma cultura determinada a varrer a morte para debaixo do tapete e escondê-la ali, Kübler-Ross desafiou o senso comum ao trazer e expor essa etapa final da existência para que não tivéssemos mais medo dela.

Sua história é uma aventura do coração, vigorosa, controvertida, inspiradora, um legado à altura de uma vida extraordinária.

“As pessoas sempre me perguntam como é a morte. Digo-lhes que é sublime. É a coisa mais fácil que terão que fazer. A vida é dura. A vida é luta. Viver é como ir à escola. Dão a você muitas lições a estudar. Quanto mais você aprende, mais difíceis ficam as lições. Quando aprendemos as lições, a dor se vai.”

“Sei muito pouco sobre a filosofia da reencarnação. Não foi o tipo de educação que recebi. Mas sei agora que existem mistérios da mente, da psiquê, do espírito, que não podem ser examinados em microscópios ou testados com reações químicas. Com o tempo, saberei mais. Com o tempo, vou compreender.”

(Agradeço à Rosângela, psicóloga de Juiz de Fora que apresentou um excelente trabalho sobre a biografia dela no curso de formação de terapia biográfica.)

Marcelo Guerra