Por Amanda Mont’Alvão
Içami Tiba é o autor brasileiro mais referendado e admirado pelo Conselho Federal de Psicologia, segundo pesquisa realizada em março de 2004 pelo Ibope. Apenas dois nomes o superam: Sigmund Freud e Gustav Jung. Içami foi além de seu diploma de médico, conquistado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), e se tornou autor de respeitados 21 livros, todos baseados na experiência trazida por mais de 76 mil atendimentos psicoterápicos a adolescentes e suas famílias em clínica particular. Ele tem no currículo mais de 3.200 palestras proferidas para empresas nacionais e multinacionais, escolas, associações e instituições no Brasil e no exterior. O psiquiatra já figurou na lista da revista Veja dos autores brasileiros que mais livros venderam.
Içami tem a voz calma, porém firme. O tempo gasto entre o fim da pergunta e o início da resposta é inferior a um segundo. Rapidez de quem está acostumado a responder às dúvidas de milhares de pais e educadores. O sorriso não esconde o orgulho dos mais de 1,5 milhão de livros vendidos, entre eles o best-seller “Quem ama, educa”.
Içami esteve em Uberaba para o 8º Congresso Nacional Amor-Exigente e aproveitou para lançar aqui sua última publicação editorial, “Juventude & Drogas: Anjos Caídos”. Sua palestra foi intercalada com aplausos constantes da platéia. Em entrevista ao JM, Içami foi enfático: os jovens não estão carentes. A droga os atrai por prazer, e passar a mão na cabeça não resolve absolutamente nada.
Jornal da Manhã – Qual a idade em que o jovem começa a utilizar drogas e de que maneira os pais podem perceber isso?
Içami Tiba - Basta observar. Hoje, os pais estão muito ausentes na vida dos filhos. Alguns beiram a negligência, pois querem delegar para as escolas a educação. Dos dois anos de idade em diante, quando a criança já vai para a escola, o comportamento dela deve ser observado todos os dias. Existe uma tal de educação aos pares, em que ele aprende coisas com seus coleguinhas de escola, que nem sempre é o mais educado; num instante, ele quer fazer em casa. As crianças querem fazer o que aprenderam. Então, se nessa hora já for quebrada a distância entre o mundo da criança e os pais, fica mais fácil manter o contato. Filhos na adolescência acompanhados pelos pais estão muito mais protegidos do que os filhos totalmente soltos.
JM - Hoje em dia, o senhor acha que o jovem está mais descompromissado do que o jovem de anos atrás?
Içami - Muito mais descompromissado. O único compromisso dele hoje é o prazer. A alegria dos jovens é judiar dos outros. É um prazer sádico de pegar as diferenças que existem e judiar de quem está embaixo.
JM - É um comportamento geral ou isso é mais comum no Brasil?
Içami - No mundo todo, não é só no Brasil. Ocorre também na França, país com um movimento de jovens muito forte. Isso está vindo na esteira do “eu faço o mal, vou embora e para mim não acontece nada”. Essa é justamente a essência dos jogos interativos, dos jogos de computador. É um “matar” o outro, aquele que está distraído, aquele que está menos armado, o menos potente. Aí ele acaba o jogo e já está pronto de novo para “matar” outra vez.
JM - E o que os pais podem fazer com essa “geração internet”, conectada durante a maior parte do tempo?
Içami - Eu chamo de “Geração Digital”, porque a internet é só uma parte. A digital é desde a televisão. Tem essa globalização individual. A educação hoje é muito mais influenciada pelo mundo digital do que propriamente só pela internet. Internet é um ramo da digital. Com essa geração de hoje, os pais precisam se atualizar, saber o que se passa com os filhos para não ficarem utilizando martelo para corrigir programa de computador. Corrigir digital com martelo é uma atitude desatualizada. Isso quebra o computador, mas não corrige a pessoa.
JM - Qual o poder de atração que a droga exerce sobre os jovens?
Içami - Eles estão acostumados em casa a ter o prazer. “Matar” por prazer. Eles não têm compromisso.
JM - Essa geração não seria mais carente pelo fato de crescer em um novo modelo de família, em que os pais passam a maior parte do tempo trabalhando?
Içami - Não é questão de carência, é uma organização errada, porque os pais não estão tão longe dos filhos o suficiente para provocar isso. Acontece que os pais não estão trabalhando a distância que existe entre eles. Então, eles se sentem culpados, em vez de falarem: “Escuta, eu estou trabalhando é por nós, vocês têm que fazer a parte de vocês em casa”. Mas aí os filhos não fazem, e os pais não cobram. Fica como se os pais tivessem mais é que trabalhar mesmo.
JM - Como os pais podem se aproximar do filho?
Içami - Se eles trazem o trabalho para casa, por que não levar o filho para o trabalho? São duas vias, não tem essa de ficar se sacrificando, dando o melhor e o filho só respondendo pela metade. Ou se contentar que o filho está vivo, pelo menos. Eu já vi pais cujos filhos detonaram o carro deles ou de alguém, até mesmo com vítimas no outro veículo, e eles dizerem: “Filho, ainda bem que você está vivo”. Devia é dar umas pancadas no filho naquela hora. Onde já se viu, matou outras pessoas, vou ficar contente que meu filho está vivo? Lógico que eu estou contente que ele está vivo. Mas e o mal que ele causou? E os outros envolvidos que estão chorando? Vou sair feliz, abraçado ao meu filho? Faz favor, que raio de educação é essa que ainda privilegia um filho que cometeu um crime de trânsito.
JM - Os relatórios apontam o crescimento do uso de drogas na classe média. Seria permissividade?
Içami - Não, não é isso. Agora isso está sendo constatado, mas sempre houve maior consumo de drogas na classe média. É que o uso entre os pobres chama mais a atenção porque aí poderão dizer que “drogas estão relacionadas à pobreza”. Mas não está. Ela está relacionada ao prazer e ao poder.
JM - Há alguma relação íntima entre droga e violência?
Içami - Sim, a maioria dos casos de violência tem drogas por trás.
JM - Combater o tráfico de drogas seria uma forma de diminuir os índices de violência?
Içami - Sem dúvida.
JM - Cada vez mais os menores praticam crimes. O senhor acredita que eles possam ser recuperados em instituições como a Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor)?
Içami - Não, Febem não. Eu acredito muito mais que as penas têm que ser proporcionais aos crimes. A Febem iguala todos os crimes. Então, fica uma medida totalitária e não particularizada. Como na cadeia grande, um crime por si só, porque a cadeia trata todos os crimes do mesmo jeito. Então, o roubo de uma galinha, um crime famélico e um crime de matar o outro é considerado igual. A fila de espera para condenar é a mesma coisa, e às vezes há quem nem foi condenado e ficou na espera. Então, eu acho que nenhuma lei que funcione desse jeito tenha resultado. Eu acho muito melhor um radicalismo mais forte, em que a pena seja proporcional ao crime que se cometeu, sem importar a idade. Se for um pequeno que matou o outro, matou. A idade que ele tem vai atenuar ou piorar.
JM - O senhor é a favor da descriminalização da droga?
Içami - Totalmente contra. O governo não dá conta das drogas que liberou. Não consegue tratar as pessoas, quer tornar a campanha política das drogas a “campanha do menos mal”. O que eles deveriam fazer é recuperar, não falar “se você usa crack, vá para a cocaína. Use maconha, porque cocaína é muito sério”. Não, isso é um convencimento fraco; o convencimento mais forte é que de ele não pode usar drogas e ponto final, vamos fazer de tudo para que não usem. Porque isso significa “cocaína eu tolero”.
JM - O que o senhor pensa da redução da maioridade penal?
Içami - Eu penso que deve ser proporcional, não importa a idade. Classificar por idade coloca o lado biológico acima do raciocínio das pessoas; não está certo. Tem adolescente que já tem uma maturidade suficiente, então vamos medir a maturidade dele: se ele já trabalhava, se já fazia negócio sozinho, se já traficava, então ele é gente grande. Então não vai ser aliviado da pena porque ele não tem 18 anos. Tem que ser condenado de acordo com o crime que cometeu.
JM - Os psicólogos deveriam trabalhar aliados à escola e às instituições de recuperação de menores infratores?
Içami - Os psicólogos deveriam fazer mais trabalho social, ir a esses lugares onde se reúnem os grupos de auto-ajuda e dar a cooperação que eles sabem dar. Mas eles não vão, querem receber só no consultório, querem tirar proveito da profissão e ainda bem que existem drogados para eles.


July 17th, 2007 at 10:48 pm
Marcelo
Já li ” QUEM AMA EDUCA” E TIVE A OPORTUNIDADE DE OUVIR UMA PALESTRA DELE AQUI EM sALVADOR.
Muito bom!
ótimo post!
abraço!
April 24th, 2008 at 9:29 am
Muito bala o que reflete o texto!