A nova Revolta da Vacina
São josé do Rio Preto, 30 de março de 2007
Wilson Daher
Escrevi há algum tempo, nesta mesma coluna, um artigo sobre a instituição da Polícia Sanitária, no Rio de Janeiro, nos idos de 1904. A pedido de Oswaldo Cruz, o governo armou uma verdadeira frente de batalha para derrubar cortiços insalubres, alargar avenidas no estilo das alamedas parisienses, invadir casas que oferecessem resistência à visita dos fiscais sanitários e, finalmente, obrigar o povo a uma vacinação em massa contra um surto de varíola. Baseados no velho axioma de que os fins justificariam os meios, as autoridades não se deram ao trabalho de fazer previamente uma campanha de esclarecimentos. E o povo, então, cansado da submissão às autoridades se revoltou com barricadas nas ruas, quebra-quebra, incêndios provocados, enfim, formou-se uma verdadeira batalha campal que só ao fim de algum tempo cessou, voltando o Rio à pasmaceira de antes. Tal episódio, historicamente, tem sido considerado como um dos embriões de cidadania do início do século 20. Os revoltados, embora ignorantes do bem que lhes faria a submissão à vacina, tinham consciência da necessidade de se libertarem do jugo imposto, sem qualquer participação efetiva de sua parte. Só mais tarde, com o entendimento dos objetivos de tais campanhas, é que o povo começou a freqüentar, voluntariamente, os postos de vacinação contra as epidemias comuns da época.
Atualmente, em Rio Preto, em pleno século 21, assistimos desolados e estarrecidos a esta nova Revolta da Vacina (antidengue) criada pelo ilustre homeopata Renan Marino. Mas como tudo na história segue um caminho não linear, dialético, agora é o povo que exige a vacina e são as autoridades estaduais que a proíbem sob as alegações, quem sabe, da falta de uma metanálise de resultados, ou a falta de um protocolo de pesquisa mais detalhado e assim por diante. Acho estranha esta proibição, quando existe, segundo consta, uma evidência de resultados, aferida na população que já fez uso da vacina homeopática e já se constatou a ausência de efeitos colaterais e/ou reações adversas em seus usuários. Por quê? Não se queixem, depois, de que venha uma nova revolta do povo, que anseia por medidas eficientes e baratas contra a propagação da epidemia da dengue. Se em 1904 não queriam a vacina de Oswaldo Cruz, por ignorância de seu benefício, hoje querem a homeopatia de Renan Marino, porque sabem agora, ao longo do tempo, que vacinas serão sempre bem-vindas, desde que provada sua eficácia. Não somos porta-voz de ninguém, neste momento em que optamos apenas pela discussão menos emocional deste caso. Há muita coisa em jogo, e as autoridades devem discuti-la à luz da racionalidade, motivo e essência da ciência verdadeira.
WILSON DAHER
Psiquiatra e professor de História da Medicina na Famerp, Rio Preto

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